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Agricultura familiar busca diversificar produção para incrementar renda e garantir a sucessão no campo

27 Julho 2018 10:00:00

Com os espaços nas propriedades cada vez mais reduzidos, as exigências burocráticas para a produção cada vez maiores e o preço competitivo em nível de consumidor, a vida e a sobrevivência no campo vão se tornando cada vez mais desafiadoras.

REDAÇÃO FOLHA REGIONAL
Foto: Jorge Pereira/ FR

Diversificar a produção, cultivar com qualidade, agregar valores ao produto, produzir mais em espaços menores, buscando maior aproveitamento na propriedade têm sido alternativas com resultados positivos para a agricultura familiar. São os pequenos produtores que garantem 70% dos alimentos na mesa do brasileiro. A região sul também se enquadra nesta estatística. Dados da Federação dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar de Santa Catarina (Fetraf-SC) mostram que o Estado catarinense possui aproximadamente 190 mil propriedades que se enquadram como agricultores familiares, sendo que chegam a produzir 71,3% de todo o volume agrícola catarinense.  

Mesmo se destacando com grande parte da produção, estes pequenos agricultores ocupam apenas 44% das terras cultivadas no Estado, ou seja, produzem mais com menos. Outra grande importância da agricultura familiar para Santa Catarina é quanto a geração de emprego. O setor emprega mais de dois milhões de pessoas que atuam em atividades como produção de leite, extrativismo vegetal, agroecológico, grãos, hortifrúti, agroindústria e as cooperativas familiares. Mas os dados do Fetraf-SC também mostram preocupação sobre a evasão e, principalmente, a sucessão no campo. Nos últimos anos em Santa Catarina, o êxito rural cresceu em 21%, e em torno de 25% das pequenas propriedades não tem perspectivas de sucessão na agricultura catarinense.

Jaguaruna e região

Em Jaguaruna e cidades vizinhas, como Treze de Maio e Sangão, grande parte da produção agrícola se enquadra como agricultura familiar. O município, conhecido como Cidade das Praias, tem a produção agrícola responsável por praticamente 1/3 do Produto Interno Bruto (PIB) do município. Segundo a Epagri, 700 famílias vivem da agricultura em Jaguaruna, sendo que ela emprega aproximadamente 2.500 pessoas no meio rural, sem contar com a atividade pesqueira. As produções de arroz, mandioca, melancia, gado leiteiro e de corte são as que mais se destacam, mas outros cultivos, como hortifrúti, começam a ganhar a adesão dos agricultores, sendo uma boa opção para ser desenvolvidas em áreas menores.

Hortifrútis tem sido alternativa

Na comunidade de Morro Bonito, o casal Renato Goulart Rebelo e Luciana Rebelo tem visto a produção de hortifrútis como uma alternativa de melhorar a renda numa pequena propriedade. De acordo com Renato, hoje cultivando hortaliças em pouco mais de meio hectare de terra, é possível contabilizar melhores ganhos do que com o cultivo de plantas tradicionais como a melancia e a mandioca. "Faço mais neste meio hectare, do que se fosse plantar uma área maior, já que a mandioca ou a melancia precisaria de plantar, no mínimo, uns quatro ou cinco hectares para ganhar o que ganho aqui", diz o agricultor.

A pequena propriedade é bem aproveitada, com produção durante o ano todo. Para isto, os proprietários investem em irrigação e técnicas para colher bem, sem o uso de agrotóxicos. A produção inclui o plantio de repolho, brócolis, cenoura, beterraba e temperos em geral. O casal, agora, também começa a se dedicar ao cultivo de ervas medicinais. Um diferencial na venda dos produtos colhidos na própria horta é a comercialização direta ao consumidor. Renato e Luciana aproveitaram o fluxo de pessoas na Rodovia SC 100 (Claudino Abel Botega), que corta a comunidade, e investiram num pequeno comércio, onde a base dos produtos disponíveis são os colhidos na própria plantação. "As pessoas vêm em busca de um produto com mais qualidade, elas chegam a perguntar se é cultivado a base de veneno", ressalta Luciana.

Muito embora o estabelecimento seja uma referência de vendas de produtos cultivados a base da agricultura familiar, possui todas as licenças exigidas por Lei. Umas das dificuldades é quanto ao selo de certificação de produtos produzidos sem agrotóxicos. "Muito embora nós estamos produzindo sem aplicação de venenos, ainda não temos a certificação de um produto orgânico, mas estamos trabalhando para isto, o que provavelmente vai aumentar a procura", enfatiza Renato.

Diversificar a produção é o segredo do negócio

O agricultor Henrique Rebelo, também da comunidade de Morro Bonito, acredita que diversificar a produtividade tem sido um bom negócio para melhorar a renda. Ele trabalha junto com familiares em 19 hectares de terras. Enquadrando-se na classificação de pequeno produtor, cultiva melancia e mandioca, se dedica à criação de gado leiteiro e de corte e ainda a aves de postura. A maior parte dos alimentos para o gado é produzida na própria propriedade. Ele destaca que a variedade facilita o equilíbrio da renda. "Tem atividades que investimos e somente vimos algum resultado econômico depois de um ano, porém já tem outras que semanalmente entra algum recurso, isto facilita, e não precisamos ficar uma safra inteira sem dinheiro", pontua o agricultor.

Burocracia: à espera do o selo de expedição

O mais novo investimento na propriedade de Henrique tem sido as aves de postura. Uma aposta na produção de ovos coloniais. "A qualidade é muito boa, tem um sabor especial, diferente do ovo comum", garante o produtor. Mas a pequena produção, que já contou com aproximadamente 500 aves, está ameaçada por falta do selo de inspeção (SIM). "As dificuldades são grandes, para viabilizar o negócio a gente tem que produzir uma certa quantia para facilitar a compra de produtos e ter oferta suficiente que dê para suprir alguns mercados", pontua o produtor, que relata as dificuldades. "É algo simples, nós só queremos trabalhar, produzir, mas esbaramos na burocracia, numa coisa simples de resolver que está ao alcance facilmente do município e ainda não temos uma solução", desabafa.

Novas culturas: uma tentativa de incrementar a renda

Na propriedade do casal Rainor Vieira Cruz e Sônia Cruz, da comunidade de Porto Vieira, além da produção de queijos utilizando o leite produzido na propriedade, o produtor busca diversificar incluindo o cultivo de flores ornamentais. São aproximadamente 10 variedades cultivadas. "É um desafio. O negócio ainda está um pouco lento, mas acreditamos nesta proposta deste novo mercado", pontua Rainor. Uma das apostas para a venda direta ao consumidor tem sido a Feira da Agricultura Familiar, que acontece todos os sábados na antiga estação do trem, no centro de Jaguaruna. "Começamos a comercializar na feira. Todos os sábados marcamos presença, tem sido uma alternativa positiva, também faço as mudas ornamentais por encomenda, os preços são compensadores e atendemos na região", destaca o agricultor.

A produção de queijos tem venda garantida na feira. Uma das preocupações do casal é manter a qualidade. O queijo produzido na propriedade já é bem conhecido e tem clientela certa. "A gente chega na feira e, às vezes, já tem gente esperando, geralmente o que levamos comercializamos tudo. O que nos deixa muito satisfeitos é que as pessoas que compram sempre acabam voltando e querendo comprar novamente", observa Sônia. Rainor e Sônia têm quatro filhos, dois deles já não trabalham mais na propriedade, mas as duas filhas mais novas, que moram com o casal, contribuem com a tarefas da casa e também com a produção. "Trabalhamos e gostamos muito da agricultura, pensamos muito no futuro dos filhos, mas a decisão de ficar na agricultura ou desenvolver outra atividade é deles", frisa Rainor.

Cresol e Producoper constroem elo de apoio à agricultura familiar

A permanecia do homem do campo na atividade agrícola, bem como o fornecimento de fomentos para a sucessão na agricultura familiar, tem sido um desafio para muitos seguimentos. A Cresol Jaguaruna e a Producooper têm sido importantes ferramentas de acesso ao crédito, assistência técnica, cursos de formação e manipulação e até a comercialização de produtos. O cooperativismo tem se tornado indispensável, uma porta abeta criando oportunidades na vida dos pequenos agricultores. De acordo Dilnei da Rosa, presidente da Producooper, é preciso ter um olhar especial para a agricultura. "Não basta fornecer o crédito, há necessidade de assistência técnica, a Cresol juntamente com a Producooper possui quatro engenheiros e uma médica veterinária à disposição do agricultor", observa Dilnei.

O presidente da Producooper ainda destaca que a cooperativa busca ser uma ponte viabilizando a comercialização para os associados. "A merenda escolar e a feira tem contribuído para agregar valores aos associados da Producooper, mas a nossa maior intenção é organizar os agricultores e buscar mercado até mesmo fora do município", ressalta Dilnei, que frisa ainda a importância dos pescadores neste contexto. "Estamos tentando conseguir o selo de inspeção e organizar toda a classe, a meta é levar a pequena indústria do pescado e a agricultura a ter ofertas o suficiente para o mercado da região". A Producooper ainda fornece assistência técnica na elaboração de projetos, desenvolvimento e manuseio dos produtos e na preparação das embalagens.

O presidente da Cresol, Madson Felisbino, destaca a importância do pequeno agricultor fazer uma boa gestão na propriedade. "A agricultura familiar tem primícias de produzir com mais qualidade, tem um olhar mais especial para o plantio, o agricultor tem esta condição de cuidar melhor em função de cultivar um espaço menor", observa o presidente, que enfatiza o apoio da cooperativa. "A Cresol tem sido uma grande parceira da agricultura, junto com a Producooper e o Sintraf vem implantando um projeto para agregar valor em sua produção, incentivando ainda a venda direta ao consumidor, com créditos mais baratos e mais acessíveis. Os números mostram que o pequeno produtor, proporcionalmente, gera mais empregos, impulsiona a economia e deixa o dinheiro circulando na cidade, pois quando a agricultura vai bem, o comércio se fortalece, isto é algo obvio, e nós precisamos refletir sobre isto e dar apoio para quem quer trabalhar", conclui.





















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